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dez
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A avó da comunidade

Dona Ivani, 80, produzida para ia à igreja

 
*por Cristine Bartchewsky

Só, mas sem nó

Toda vez que alguém passa por dona Ivani na rua de sua casa ela logo diz: “Vamos!”, como se quisesse traduzir a movimentação frenética da vida ao seu redor. Caminha vagarosa pela rua sem saída atenta às vizinhas que conversam no portão, a um papagaio falante no jardim de rosas, ao pintor do vizinho de frente. Avisa a amiga da casa próxima que chegou carta e comenta algo sobre o tempo.

Viúva há muitos anos, Ivani Silva de Souza vive só em uma casa relativamente grande e possui um inquilino nos fundos – o qual espera substituir brevemente em razão de alguns problemas. Tem uma filha e duas netas que a visitam sempre e insistem para que venda o imóvel e junte-se à família. Sente-se só, mas prefere a solidão à bagunça de ter outras pessoas espalhadas pela casa.

Aparentemente tem uma rotina tranqüila, como é no geral entre pessoas de sua idade. Beirando os 80 anos, revela que não sente nenhum tipo de dor, não tem problemas de saúde – só a pressão andou subindo um pouquinho – e dorme muito bem. Gosta de ler a bíblia e só liga a televisão para preencher o silêncio. É vaidosa. Pinta o próprio cabelo e quando sai se arruma toda. Gosta de batom. Mas tem que ser batom bem vermelho!

Pernambucana, nasceu e se criou em Maraial, perto de Recife e Garanhuns. Conta que o pai era o mais rico fazendeiro da região, que tinha um engenho, era usineiro. Saiu de lá aos 18 anos acompanhada pela cunhada e, assim que chegou a São Paulo, se casou com um primo. Voltou algumas vezes à cidade natal para visitar a família que deixara para trás. Mas após a morte dos pais não viu mais sentido na viagem.

Navegante destemida

Dona Ivani é como o mar: ora calma, ora agitada. Sempre gostou de nadar, porém os pais achavam ruim quando se banhava no rio cheio de pedras atrás da casa lá em Maraial. Ao lembrar isso, menciona certa vez que concedeu entrevista a uma emissora de TV. Estava num clube com amigas de um dos grupos de terceira idade que frequenta e foi bastante aplaudida pela desenvoltura na água. Contou que assim que viu a piscina colocou o maiô e mergulhou, boiou e nadou muito.

Mas a personalidade forte da jovem octogenária não se detém em seu aspecto comunicativo e sociável. Nas eleições de 1952 enfrentou um sargento que queria prendê-la por estar “fazendo política”. Ela explica que era proibido fazer boca-de-urna e que durante a juventude foi muito engajada em questões políticas. No mesmo ano foi mesária. Hoje não que saber do assunto. “Me abusei, enchi o saco da turma! Digo, não vou votar mais!”.

Ainda jovem, gritou com um rapaz que intimidava seu irmão com um canivete. Ao confessar a peripécia sua expressão foi modificada. Repetia, com “sangue nos olhos” e caretas bravas as palavras que esbravejou no episódio, como que revivendo-o. O resultado é que levou o moço para a delegacia. “Aonde eu via briga de homem com homem eu ia em cima. Minha mãe dizia que eu não levava raiva para casa, resolvia na rua”.

Por outros olhos

A luz da sala iluminava pouco e, nas paredes, muitos quadros religiosos estavam pendurados. Havia um enorme tigrão de pelúcia (aquele do ursinho Puff) e algumas coisas no sofá, como uma caixa grande com muitas roupas. “É tudo doação, sabe? Quer refrigerante?”.

Todos os anos, quando vem chegando o Dia das Crianças e o Natal, faz bonequinhas de pano para as crianças da comunidade. “As cabeças eu ganho tudo, tem um saco assim ‘ó’, só de cabeça”. Em meados do mês de setembro, dona Ivani dá início à confecção de bonecas. Algumas recebem toquinha vermelha e, então, nasce o Papai Noel. Dezenas deles. Durante a missa as crianças recebem as bonequinhas e, segundo Nete, tem criança que chora de felicidade. O momento da entrega dos presentes é sempre um dos mais esperados pelos pequeninos nas datas especiais.

Nete trabalha na acolhida da paróquia e conheceu dona Ivani há dez anos, ali mesmo, e depois soube que ela morava na rua onde trabalha como diarista. “[Ela] tem uma bondade muito grande no coração. Faz muito favor, se bem que não é reconhecida, mas por Deus que vai ser” – declara. Revela que já encontrou a senhora debruçada sobre sacos e caixas na rua em busca de materiais que pudesse aproveitar para compor as doações.

Questionada sobre andar só pela rua de sua casa, responde que está fora de conversa fiada. Confidencia que não se sente à vontade em meio a assuntos frívolos, que as pessoas não estão dispostas a tratar de questões mais sérias, ou mesmo religiosas. Tem a sensação de que é invejada por se cuidar, ser vaidosa e segura de si. Mas não dá atenção, ou, como ela mesma diz: “Não dou cartaz”.

Fé, engrenagens da vida

Enquanto a missa corre, dona Ivani presta atenção a cada movimento, entoa cantos e agita os braços no ritmo da música. Um “Glória Jesus” sai da boca pintada de carmim. Unhas feitas, cabelos penteados. Os pés calçam sapatos de salto baixo e os bolsos do blazer preto trazem balas que chupa durante a missa. Também oferece às crianças que a chamam de avó.

Diz que o padre fala muito e parece impaciente – não dispersa. Mas não perde um culto. Vai religiosamente de segunda à segunda. Para ela, os princípios católicos têm grande importância. A religião significa mais que um momento para meditar sobre seus atos. Está além de ser apenas um modo de vida. É a própria vida observada, estudada e trabalhada dia-a-dia tendo suas lacunas preenchidas pela aplicação dos ensinamentos. Ou é como uma pedra que deve ser lapidada até chegar próximo de sua melhor forma. É a maneira com que dona Ivani lida com uma longa existência e a perspectiva dos anos vindouros.

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