Fernando Morais narra a trajetória daquele que foi um dos maiores arquitetos da comunicação no Brasil – Assis Chateaubriand, o Chatô. O império desse paraibano de Umbuzeiro foi construído sob o véu obscuro de práticas fraudulentas, principalmente no que concerne a assuntos financeiros. E o autor não se priva de transmitir ao leitor os pormenores da falta de ética do personagem. Contudo, essa abordagem adotada por Morais, além de entreter o leitor e documentar a história de um personagem tão importante para a comunicação, suscita questões acerca do papel do jornalista de hoje e coloca em voga a discussão sobre ética.
O livro começa com um delírio de Chatô quando estava internado por causa de uma trombose, traça brevemente sua infância para logo se aprofundar na figura controversa e sua vida repleta de aventuras e desventuras. Nas mais de 730 páginas fica claro que o que importava para Chateaubrian era exclusivamente adquirir cada vez mais poder. E não foi do nada que erigiu seu império. Entre tantos amigo e inimigos que conquistou suas relações eram instáveis, já que agia a favor ou contra determinada pessoa conforme seus próprios interesses. Por conta disso, as pessoas preferiam ficar ao seu lado do que fazer inimizade com o ‘homem com o diabo no corpo’, como era conhecido pelos censores da ditadura. Como ele mesmo dizia: “Ser prudente é antes de tudo ser medíocre.” O resultado desse comportamento estratégico misturado a tanta falcatrua foi um poderoso conglomerado composto por jornais, revistas, estações de rádio e televisão, os Diários Associados.
Em seu currículo ainda consta atuação nos negócios, na arte, bem como a fundação do Masp e influência em atos políticos – Lei “Teresoca” promulgada por Getúlio Vargas, apoio em eleição e deposição de presidente. Chatô também colecionava mulheres e filhos, apesar de ser feio e de ficar incapacitado de manter relações sexuais em virtude da trombose. Entretanto, seus relacionamentos não passavam de diversão e conveniência, já que seu foco era totalmente direcionado aos negócios. Dito isto, não é de se estranhar sua fama de pai ausente e péssimo marido.
À parte todas as polêmicas em torno de Chateaubriand, Fernando Morais não deixa de frisar seus pontos positivos. O poder de relacionar-se com políticos e pessoas influentes de forma a conseguir realizar seus intentos, o feito de ter trazido a televisão para o país e toda (r)evolução promovida na mídia, na forma de comunicar, além das gráficas e impressões. Sem esquecer da TV Tupi, que foi a emissora de televisão estreante. Outro ponto a ser mencionado é que o respeito que as pessoas tinham por Chatô se devia mais pelo medo que ele precipitava do que pela admiração, o que nem por isso deve ser descartado como um dos sucessos atingidos por ele. Também não podemos esquecer de que, fora o fato de ser uma obra extensa e detalhista que parece se perder um pouco ao final, Chatô, o Rei do Brasil tem seu valor histórico não só sobre a vida do personagem, mas também da história da República do Brasil e do panorama do século XX.
Fernando Morais é jornalista, político e escritor. Entre as biografias mais famosas que escreveu está ‘Olga’ sobre a vida trágica de Olga Benário.
Serviço
Livro: Chatô, o Rei do Brasil
Autor: Fernando Morais
Editora: Companhia das Letras
Preço sugerido: R$ 69,90

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